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Número Dois
por Luis Noronha

A boa notícia é a seguinte: apareceu um novo artesão na cena musical carioca. Não que ele fosse um desconhecido; Claudio Henrique já tinha lançado seu primeiro disco, faz uns dois anos. Mas a prova verdadeira, única e definitiva, de que o homem não estava de brincadeira, que não era fogo de palha, que não foi mais um esforço isolado de alguém que só buscava concretizar um velho sonho, isso está chegando agora: o homem soltou um disco novo, o seu segundo, intitulado “Número Dois”. Porque primeiro disco, qualquer pessoa dedicada produz. Encarar o segundo é coisa de quem tem mais a dizer de quem tem um estilo, de quem está seguindo um caminho. Ou seja, é o caso de um artista como Claudio Henrique.

O que se ouve em estágio avançado de cristalização em “Número Dois” vinha esboçado no projeto anterior: a procura de uma batida perfeitamente carioca, jogando no caldeirão fervente uma feijoada feita de sonoridades e poesia que remetem ao cordel dos migrantes, ao samba nativo e à antropofágica versão oitentista do pop nacional. As letras são construídas dramaticamente, como crônicas instantâneas da vida no purgatório da beleza e do caos, ao tempero de ironia tão fina e trabalhada quanto arranjos e melodias. Logo na largada, um tiro de bala tracejante cortando o ar: “Bira – A lenda de Irajá”. Praticamente um manifesto, uma carta de intenções, a música dá o tom do novo trabalho. Sob a influência de ritmos tribais com algo de cordel, a música conta uma história com começo, meio e fim em tom dramático, uma trama densa narrada como um filme cantado. Violenta saga sub-urbana, a música é protagonizada por um (anti) herói do Rio contemporâneo. É, ao mesmo tempo, uma história de amor trágica e um conto urbano do Rio de hoje.

Na mesma linha, o CD traz outras pérolas. “Made in Baixada” é um exemplar perfeito e acabado do novo samba carioca, em que guitarras conversam com o agogô. Novamente, com um personagem principal fazendo as vezes de fio condutor, para sair de um subúrbio impressionista e traçar a transição da zona norte para a zona sul, na costura improvável da cidade partida. Na seqüência, em “Nego besta”, continuamos no ambiente do samba pop para escrever uma crônica urbana, visceral e viciosa, num contexto sensorial feito um tableaux vivo, com instantâneos da cidade impressos numa parede de ladrilhos coloridos.

Neste ponto, temos outro tema recorrente do autor: o amor relacionado com a impossibilidade e a perda. Depois, em “Ana Beatriz”, o mergulho na fusão do samba com o pop vai dar numa das faixas mais deliciosas do novo CD, contando a história de uma heroína moderna, personagem-título. De novo, temos uma crônica cheia de referências visuais, com ritmo narrativo, cheia de humor e citações ao Rio. No fim, fica sendo tudo uma questão de balanço e trama com manemolência carioca, com ironia e um final aberto. Mas o compositor também apresenta, no quadro de sintomas, fortes inclinações autobiográficas. E sua formação, como poeta e músico, deixa pistas, mais ou menos claras, em outras composições.

Em “Mar de outono” ouvimos ecos do pop dos anos 80 numa das mais delicadas baladas do CD, feita de imagens poéticas perfeitamente paralelas na sonoridade, com cordas e violinos arranjados finamente – num dos mais inspirados arranjos do produtor artístico Bruno Migliari. Em “Coragem”, tem-se a sonoridade oitentista com outra roupagem, um inventário sentimental, meio biográfico, meio triste, em sons e letras, com destaque para o toque da gaita – do próprio Claudio – no diálogo com uma guitarra hard blues. “Era assim (A canção dos inocentes)” é uma balada cool, que consegue destilar beleza a partir da melancolia, ressaltada numa delicada e romântica trama entre cordas e sopro.

“Mulheres alteradas” é outro ponto inspirado do CD, um rasante hilário sobre a vida da mulher moderna, da super-mulher, cheia de compromissos na agenda. Novamente, Claudio Henrique faz uma espécie de arqueologia sonora dos anos 80, num exemplo de pop carioca da melhor estirpe, com direito a solinho de guitarra comentando a letra irônica, afiada, certeira, levando à inevitável e redentora conclusão: elas  “precisam de um homem…”.  Enfim, um artista sem medo do politicamente incorreto.

Para completar a variedade do cardápio, dois pontos fora da curva. “A nossa música” é uma canção meio bossa-fossa, blueseira, quase para ser ouvida num piano-bar de frente para uma dose de uísque, coisa de homem para mulher, cantando o amor sempre ligado à frustração; e “Idade Mídia”, um experimento curioso, combinando violão de aço, de nylon, violino e teclados com baixo acústico, percussão e elaborado trabalho vocal para citar a sonoridade medieval, numa referência indireta ao mundo dos jogos digitais.

Por último, fechando o trabalho, vem “Sardinha e Moela (Todos os clichês do samba)”, clássico do estilo “claudiohenriqueano”, um saboroso samba com alusões a uma autêntica instituição carioca, o botequim. É, ainda por cima e, até certo ponto, uma viagem autobiográfica. A letra e a música brincam com elementos presentes em todas as faixas, numa das melhores letras do CD. Graça, charme, percussão em caixa de fósforos e garrafa de cerveja, entre outras coisas, como num menu feito de jóias dos balcões de azulejo e vidro. É o fecho dourado de uma aventura musical. É bom prestar atenção em Claudio Henrique, porque, agora que começou de verdade, ele não vai parar.

 
   
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