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Privilégio de muitos
por Jorge Espirito Santo

Já perdi a conta de quantas vezes o meu telefone tocou e a resposta a um simples “alô” foram os primeiros acordes ao violão de uma nova música que o Claudio Henrique fazia questão de mostrar naquele momento – não importava o quão adiantado da hora pudesse ser. Assim, conheci, por exemplo, Mulata egípcia (“Mulata egípcia/paixão fictícia/deserto é meu mundo/sem ter você”) e muitas outras canções, algumas delas agora registradas neste CD. São apenas 12, mas já candidatam o Claudio a fazer parte de uma nova safra da música brasileira, como forte aposta para o seleto rol de novos – e bons – compositores. Graças aos telefonemas das madrugadas, pude conhecer em primeira mão um repertório que foi sendo construído nos últimos 20 anos e que, inexplicavelmente, permanecia inédito. Já estava na hora de Claudjones dividir esse privilégio dos amigos com um número maior de pessoas.

O primeiro passo nessa direção foi dado pelo tecladista e produtor Alex de Souza, amigo de longa data, com quem, em meados dos anos 80, Claudio dividira palcos em apresentações do Compartimento Surpresa – banda carioca que participou da primeira cena do rock Brasil, como relata um dos melhores livros sobre o assunto, BRock, do jornalista Arthur Dapieve. Alex produziu os últimos dois trabalhos de Lulu Santos e, ao saber que o ex-vocalista e compositor do Compartimento decidira, enfim, gravar seu disco, o levou ao Fubá, estúdio que mantém com Lulu no Catete, bairro do Rio. Nos primeiros ensaios e gravações, Claudio conheceu Fabiano Araújo, jovem tecladista e arranjador capixaba, e o convidou a assumir a produção e direção artística do CD. Fabiano mudou o pitch do ritmo do trabalho. Formou uma banda, com os irmãos Cassiano e Luciano Nogara (baixo e bateria, respectivamente) e o guitarrista César Bottinha. A alma sonora do CD estava pronta.

O mais difícil viria depois. Num repertório de mais de duas décadas de composições, escolher as músicas para este primeiro CD deixa sempre um sentimento de que “aquela outra também podia ter entrado”. Eu mesmo reclamo a falta de algumas canções – principalmente das letras que narram sagas e histórias, minhas preferidas – ou mesmo de um samba do Claudjones. Mas a seleção de CH deixa muito claro o que ele se propõe: mostrar um trabalho que tem personalidade própria e que passa longe de qualquer tipo de modismo. Ao contrário do que estamos nos acostumando a escutar em boa parte da nova música brasileira, em que tudo se parece com alguma coisa e ainda tem aquela levada de alguém, ao final da audição deste CD você tem a certeza de que acabou de ouvir um CD... do Claudio Henrique.

Ele abre os trabalhos com Morte no morro, uma crônica sustentada por uma poderosa programação eletrônica de Fabiano e Duda Larson (“E ‘subiu’ lá no morro/os homens da lei/Perguntando a todos/quem é o culpado/Responderam em coro/Ah! eu não sei/morte no morro/é caso encerrado”). Sem dúvida, este tipo de letra/crônica é o que mais chama atenção no trabalho de CH. Na seqüência vem Brinde – que mistura sanfona e viola caipira com uma batida rock’n’roll –, música que tem a participação nos vocais de Rosângela, irmã de Claudjones e companheira dos tempos do Compartimento. Rô também canta em Mordaça. As duas canções foram co-produzidas por Alex de Souza, que convidou músicos conhecidos do cenário pop-rock para participações especiais, como o baterista Chocolate, o baixista André Rodrigues, o guitarrista André Valle e a percussão de Armando Marçal, o Marçalzinho. Brinde e Mordaça foram as primeiras duas músicas a “entrar” no Fubá, ainda em novembro de 2001.

Algum tempo depois, os trabalhos seriam interrompidos para dar lugar no estúdio a Lulu Santos, que lá gravou seu último CD, Programa. A partir desta parada, assumiria a mixagem do disco do Claudio o mesmo técnico de som do Lulu, Eber Marcos. De volta às gravações, o repertório já contava com três canções novas, compostas especialmente para a banda, que acabaram entrando no CD, no lugar de outras mais antigas. “A gente sempre gosta mais da última música. É como filho caçula”, diz o compositor. Em todo o trabalho, Claudjones só divide uma parceria, com o jornalista Renato Fagundes, na minha faixa preferida, Olhos de menina – trilha sonora perfeita para manhãs chuvosas.

Para não transformar esta apresentação em um faixa-a-faixa, sugiro que você descubra o primeiro Cd do Claudio Henrique ouvindo, claro. Ao final de cada audição, você se surpreenderá com algum detalhe novo, seja na letra ou nos arranjos. Porque agora, de CD na mão, você já faz parte daquele número maior de pessoas que têm a oportunidade de conhecer o trabalho de Claudjones, o que não é mais privilégio dos amigos. Ainda bem.

 
   
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